Aos meus amigos amantes de gatos. Amei o texto. Leiam, vale muito a pena.
Este post é uma homenagem a um anjo que Deus enviou pra me ajudar nas duas ocasiões em que a Vida me tratou com maior dureza.
Theo ficou comigo por 20 anos e ele morreu há 3 anos
A dor da saudade já se foi... ficou uma grata lembrança.
ODE AO GATO Artur da Távola
NADA É MAIS INCÔMODO PARA A ARROGÂN-
CIA HUMANA QUE O SILENCIOSO BASTAR-SE DOS GATOS.
O só pedir a quem amam. O só amar a quem os merece. O homem quer o
bicho espojado, submisso, cheio de súplica, temor, reverência,
obediência. O gato não satisfaz as necessidades doentias de amor. Só as
saudáveis. Já viu gato amestrado, de chapeuzinho ridículo, obedecendo às
ordens de um pilantra que vive às custas dele? Não! Até o bondoso
elefante veste saiote e dança valsa no circo. O leal cachorro no fundo
compreende as agruras do dono e faz a gentileza de ganhar a vida por
ele. O leão e o tigre se amesquinham na jaula. Gato não. Só aceita
relação de independência e afeto. E como não cede ao homem, mesmo quando
dele dependente, é chamado de traiçoeiro, egoísta, safado, espertalhão
ou falso. “Falso”, porque não aceita a nossa falsidade e só admite afeto
com troca e respeito pela individualidade. O gato não gosta de alguém
porque precisa gostar para se sentir melhor. Ele gosta pelo amor que lhe
é próprio, que é dele e o dá se quiser.
O gato devolve ao homem a exata medida da relação que dele parte.
Sábio, é esperto. O gato é zen. O gato é Tao. Conhece o segredo da
não-ação que não é inação. Nada pede a quem não o quer. Exigente com
quem o ama, mas só depois de muito se certificar. Não pede amor, mas se
lhe dá, então o exige. O gato não pede amor. Nem dele depende. Mas,
quando o sente, é capaz de amar muito. Discretamente, porém, sem
derramar-se. O gato é um italiano educado na Inglaterra. Sente como um
italiano, mas se comporta como um lorde inglês. Quem não se relaciona
bem com o próprio inconsciente não transa o gato. Ele aparece, então,
como ameaça, porque representa a relação sempre precária do homem com o
(próprio) mistério. O gato não se relaciona com a aparência do homem. Vê
além, por dentro e avesso. Relaciona-se com a essência. Se o gesto de
carinho é medroso ou substitui inaceitáveis (mas existentes) impulsos
secretos de agressão, o gato sabe. E se defende ao afago. A relação dele
é com o que está oculto, guardado e nem nós queremos, sabemos ou
podemos ver. Por isso, quando esboça um gesto de entrega, de subida no
colo ou manifestação de afeto, é muito verdadeiro, impulso que não pode
ser desdenhado. É um gesto de confiança que honra quem o recebe;
significa um julgamento. O HOMEM NÃO SABE VER O GATO, MAS O GATO SABE
VER O HOMEM. Se há desarmonia real ou latente, o gato sente. Se há
solidão, ele sabe e atenua como pode (enfrenta a própria solidão de
maneira muito mais valente que nós). Se há pessoas agressivas em torno
ou carregadas de maus fluidos, eles se afastam. Nada dizem, não
reclamam. Afastam-se. Quem não os sabe “ler” pensa que “eles não estão
ali”, “saíram” ou “sei lá onde o gato se meteu”. Não é isso! É preciso
compreender porque o gato não está ali. Presente ou ausente, ensina e
manifesta algo. Perto ou longe, olhando ou fingindo não ver, está
comunicando códigos que nem sempre (ou quase nunca) sabemos traduzir. O
gato vê mais, vê dentro e além de nós. Relaciona-se com fluidos, auras,
fantasmas amigos e opressores. O gato é médium, bruxo, alquimista e
parapsicólogo. É uma chance de meditação permanente ao nosso lado, a
ensinar paciência, atenção, silêncio e mistério. Monge, sim, refinado,
silencioso, meditativo e sábio, a nos devolver as perguntas medrosas
esperando que encontremos o caminho na sua busca, em vez de o querer
preparado, já conhecido e trilhado. O gato sempre responde com uma nova
questão, remetendo-nos à pesquisa permanente do real, à busca
incessante, à certeza de que cada segundo contém a possibilidade de
criatividade e novas inter-relações, infinitas, entre as coisas. O gato é
uma lição diária de afeto verdadeiro e fiel. Suas manifestações são
íntimas e profundas. Exigem recolhimento, entrega, atenção. Desatentos
não agradam os gatos. Bulhosos os irritam. Tudo o que precisa de
promoção ou explicação os assusta. Ingratos os desgostam. Falastrões os
entediam. O gato não quer explicação, quer afirmação. Vive do verdadeiro
e não se ilude com aparências. Ninguém em toda a natureza, aprendeu a
bastar-se (até na higiene) a si mesmo como o gato. Lição de sono e de
musculação, o gato nos ensina todas as posições de respiração e yoga.
Ensina a dormir com entrega total e diluição no Cosmos. Ensina a
espreguiçar-se com a massagem mais completa em todos os músculos,
preparando-os para a ação imediata. Se os preparadores físicos
aprendessem o aquecimento do gato, os jogadores reservas não levariam
tanto tempo (quase quinze minutos) se aquecendo para entrar em campo. O
gato sai do sono para o máximo de ação, tensão e elasticidade num
segundo. Conhece o desempenho preciso e milimétrico de cada parte do seu
corpo, ao qual ama e preserva como a um templo.
Lições de saúde
sexual e sensualidade. Lição de envolvimento amoroso com dedicação
integral de vários dias. Lição de organização familiar e de definição de
espaço próprio e território pessoal. Lição de anatomia, equilíbrio,
desempenho muscular. Lição de salto. Lição de silêncio. Lição de
descanso. Lição de introversão. Lição de contato com o mistério, o
escuro e a sombra. Lição de religiosidade sem ícones. Lição de
alimentação e requinte. Lição de bom gesto e senso de oportunidade.
Lição de vida e elegância, a mais completa, diária, silenciosa, educada,
sem cobranças, sem veemências ou exageros e incontinências.
O gato é um monge portátil sempre à disposição de quem o saiba perceber.
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